SUICÍDIO
DEFINIÇÃO
"Ato consciente de aniquilação auto-induzida, melhor entendido como uma enfermidade multidimensional em um indivíduo carente que define uma questão para a qual o ato é percebido como a melhor solução" ou simplesmente, a morte intensional auto-infringida. De forma alguma o suicídio é um ato aleatório ou sem finalidade, mas representa a saída para um problema que está causando um intenso sofrimento.
Associados ao sofrimento encontramos necessidades frustradas ou não satisfeitas, sentimentos de desesperança, desamparo e impotência, um estresse insuportável, um estreitamento nas opções percebidas pelo paciente e um desejo de fuga.
O cenário ideal para o suicídio é composto de três fatores predisponentes e um gatilho que desencadeia a ação. Este gatilho é a idéia de que dor da situação atual cessa terminando com a própria vida. Os fatores predisponentes envolvem o ódio de si mesmo, devido à culpa ou baixa auto-estima; um estado de agitação, no qual o paciente está tenso e não consegue pensar com clareza; e a limitação das forças intelectuais, ou percepção estreitada, de tal forma que o indivíduo não consegue pensar mais além da situação imediata.
A maneira de tentar reverter este quadro envolve reduzir a dor psicológica modificando o ambiente estressante; construir um apoio realista, reconhecendo que o paciente pode ter uma queixa legítima; e oferecer alternativas para o suicídio.
SUICÍDIO X SAÚDE MENTAL
Entre os pacientes que cometem suicídio, quase 95% tem uma doença mental diagnosticada, 80% tem um transtorno de humor, 25% são dependentes de álcool, 15% dos pacientes que tem um destes transtornos morrem por suicídio. Apesar de ser uma doença menos comum, a esquizofrenia responde por 10% dos suicídios. Pacientes com depressão delirante são quem apresentam o mais alto risco para suicídio.
O risco de suicídio entre pacientes psiquiátricos é de 3 a 12 vezes maior que no restante da população. A idade do suicídio varia em torno dos 30 anos, o que parcialmente deve-se ao início precoce da esquizofrenia e transtorno de humor.
Durante a primeira semana de internação o risco é alto, normalizando entre a terceira e quinta semana.
O período após a alta é especialmente perigoso. O paciente psicótico tende a destruir a rede de apoio social, e no retorno à comunidade, está fracamente integrada à sociedade. O isolamento social, alguma nova adversidade ou à volta de problemas anteriores pode torná-lo desencorajado, impotente e desesperançado, estado de humor ideal para colocar o suicídio em prática.
Após o terceiro mês a taxa de suicídio volta a se igualar com a população geral.
AVALIAÇÃO
A atitude e os preconceitos morais de quem avalia um paciente suicida podem influenciar na decisão do paciente. Reagir ao paciente de um modo moralista, crítico, ter reações fortes e negativas sobre a idéia de alguém tirar sua própria vida aumenta o risco na mesma proporção das reações negativas.
O avaliador deve ter em mente que o estado suicida é freqüentemente passageiro, resulta de uma doença que tem causas tanto orgânicas quanto psicológicas, e que se o suicídio puder ser evitado, a doença subjacente será tratada e futuros estados suicidas serão evitados.
ETiOLOGIA
A etiologia do suicídio envolve fatores sociais, como aqueles que ocorrem após a dissolução de um vínculo (suicídio anômico); aqueles cometidos em benefício de outros para aliviar a carga de alguém que tem de cuidá-los, um modo de recuperar a honra (suicídio altruísta); e o sentimento de não estar integrado no convívio, não ter lugar na sociedade (suicídio egoísta).
Fatores biológicos estão claramente definidos. Pacientes deprimidos com níveis baixos de ácido 5-hidroxindelacético (derivado da Serotonina) tem risco aumentado para suicídio. Altos níveis de 17 hidrocortiscoteróides urinário também elevam o risco para suicídio.
Entre os fatores psicológicos, pessoa com impulsividade acentuada, dependência de terceiros para manutenção de auto-estima, principalmente os dependentes insatisfeitos e ter expectativas irrealistas, os chamados "perfeccionistas" também ficam com um risco aumentado para suicídio.
EPIDEMIOLOGIA
As taxas internacionais de suicídio variam em torno de 10-15 por 100.000. Em alguns países do leste europeu, Escandinávia, Japão, as taxas chegam a 25 por 100.000. Nos Estados Unidos, que colocam-se entre as taxas internacionais, entre 1970 e 1980, houve mais de 230.000 suicídios, aproximadamente 1 em cada 20 minutos. Atualmente, neste país, o suicídio ocupa a oitava posição entre as causas gerais de morte, sendo que no grupo etário entre 15 e 24 anos, ocupa a segunda posição vindo após os acidentes.
Estes números representam apenas os suicídios completados, sendo que as tentativas de suicídio são estimadas em 8 a 10 vezes maiores.
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS
Os homens comentem suicídio com freqüência três vezes maior que as mulheres. No entanto, elas tentam quatro vezes mais que os homens.
Esta taxa mais alta de êxito entre o sexo masculino está associada aos métodos usados. Geralmente o fazem usando arma de fogo, enforcamento ou pulando de locais elevados, enquanto as mulheres tendem a fazê-lo tomando dosagens excessivas de medicamentos ou veneno.
As taxas de suicídio aumentam com a idade. Entre os homens, o número de suicídios completados é maior após os 45 anos. Entre as mulheres, esta taxa aumenta após os 55 anos. A maioria dos suicídios ocorre entre 15 e 44 anos.
Entre as raças: homens brancos cometem suicídio duas vezes mais que não brancos. Dois em cada três suicídios são de homens brancos.
O casamento, reforçado pelos filhos, diminui significativamente o risco de suicídio. Pessoas solteiras, jamais casadas, cometem suicídio duas vezes mais que pessoas casadas. Entretanto, pessoas casadas anteriormente, têm duas vezes mais chance de suicídio que as jamais casadas. Estas taxas atingem um pico entre homens divorciados, chegando a 69 por 100.000.
História de suicídio na família e isolamento social aumentam o risco de suicídio.
Entre as profissões, quanto mais alta a posição social, maior é o risco de suicídio, mas, o trabalho em geral, protege contra o suicídio, que é maior entre as pessoas desempregadas que entre as pessoas empregadas.
A saúde física está diretamente relacionada com a taxa de suicídio. Em torno de 30% dos suicidas consultaram médico nos seis meses que antecederam o ato. Estudos de necropsia mostraram doenças físicas presentes em 25 a 75% das vítimas de suicídio. Fatores associados com doença e suicídio são a perda da mobilidade, que impossibilita atividade física ocupacional ou recreacional, desfiguramento e dor crônica intratável. Contribuem os efeitos secundários como perturbação nos relacionamentos e perda da situação profissional.
Quem avalia um paciente deve perguntar direta e exaustivamente sobre ideação suicida e tentativa anterior. De forma alguma falar sobre o suicídio pode induzir um paciente a praticá-lo. Além disso, uma tentativa de suicídio anterior é o melhor indicador que um paciente apresenta risco aumentado para suicídio. O risco de um paciente fazer uma segunda tentativa de suicídio é mais alto dentro de três meses após a primeira tentativa.
Oito em dez pessoas que se mataram dão alarme de suas intenções e cinqüenta por cento afirmaram abertamente que desejam morrer. Ter um plano mentalizado com acesso a meios letais é um sinal particularmente perigoso.
Outro sinal perigoso vem do paciente que estava ameaçando suicidar-se, e tornou-se silencioso e menos agitado. Na medida em que ele melhora sente-se mais energizado e pode ter tomado a decisão secreta de cometer suicídio.
Fonte: http://www.psiquiatriageral.com.br/emergencia/emergencia.htm